Relato do dia mais importante da minha vida
Terça-feira, Outubro 21, 2003
Fiz esse relato para quem quiser saber como foi o meu parto. Está tudo contadinho, tim tim por tim tim, tentei me lembrar de todos os detalhes. Então vamos lá, voltar no tempo para o dia mais importante da minha vida. Foi o momento em que eu consegui enfim vivenciar a experiência que estava buscando e para qual eu estava me preparando desde o início da gestação.
Bem, quem acompanhou minha gestação sabe da minha busca por um médico que tivesse pensamentos parecidos com os meus. Mas na verdade, no princípio eu nem tinha certeza de como seria meu parto, de como eu queria que ele fosse. Me indicaram a lista Amigas do Parto, e eu exitei um pouco de entrar, pois a quantidade de mensagens recebidas era gigante, e além disso eu sentia que o clima era diferente das outras listas que eu estava acostumada. Resolvi entrar, observar e aprender, mesmo que não participasse tão ativamente. Hoje sei que foi a melhor coisa que eu fiz, pois nem site nem livro nenhum me convenceria de forma tão intensa o quanto era melhor e mais natural ter um parto vaginal. Foi pela lista que eu fiquei sabendo dos médicos que poderiam me assistir, foi pela lista que eu fiquei sabendo do livro da Janet Balaskas (Parto Ativo), foi pela lista que eu li os relatos de parto mais emocionantes da minha vida.
Tudo começou na terça, dia 07. Eu já estava com 40 semanas completas, e havia pedido à lista dicas de como induzir o parto de uma forma natural. Entre todas as maneiras que recebi, teve uma que eu pratiquei durante todo aquele dia: estimular o bico dos seios como se fosse o bebê mamando, de três em três horas. Não sei se isso ajudou, ou se eu ia entrar em trabalho de parto naquele dia mesmo, mas o fato é que naquela tarde eu comecei a perceber que as contrações indolores estavam ficando um pouco mais fortes. Por volta das onze da noite começaram a ficar um pouco doloridas, como cólicas bem fraquinhas. Eu esperei um pouco até ter certeza e acordei o Marcelo para cronometrar os intervalos das contrações. Era meia noite. Estava iniciando o dia que seria o início da nossa nova vida, uma vida em família. Na TV passava o filme ¿Eu, Tu, Eles¿ com a Regina Casé. Quando o Marcelo começou a anotar as contrações, percebemos que o intervalo entre elas era menor do que parecia. Elas vinham de 3 em 3 minutos, de 4 em 4, às vezes de 1 em 1, no máximo de 5 em 5. Tinha vontade de ir no banheiro, mas não saía nada. Caminhei um pouco pelo apto e fui terminar de ajeitar as coisas na malinha. A essa altura, a dor já incomodava bastante. A cada contração, eu buscava posições e movimentos que me ajudassem a ficar tranqüila. Me apoiava no Marcelo, dava pulinhos, respirava fundo. Ele me ajudou a tomar um banho, a água quente aliviava bastante, mas eu soltava gemidos a cada contração. Mas aí passava tudo e eu ficava bem. O Marcelo estava começando a ficar ansioso. Eu ainda fiz ele tirar o meu esmalte, que estava todo descascado. Saímos de casa passava de 1:30 h. Sentir contrações dentro de um carro em movimento é a pior coisa! A maternidade nunca me pareceu tão longe... isso que eu ainda fiz o Marcelo parar numa loja de conveniência para comprar filme pra máquina... eu estava pedindo pra ele comprar há uma semana!
Cada sacolejosinho do carro eu me balançava toda por dentro... eu pedia pro Marcelo ir mais devagar, ele dizia: ¿Mais devagar que isso?!¿ E eu respondia que tínhamos tempo, eu sabia que ela ia demorar a nascer. Num certo momento eu cheguei a pedir para ele parar o carro, pois estava vindo uma contração e tinha uma lombada pela frente. Enfim chegamos na maternidade. Eu havia combinado com a médica que iria direto pra lá e de lá eles a chamariam. Entramos e a recepcionista perguntou o que desejávamos. Como achei que, pela minha cara, a resposta era óbvia, fiquei quieta. Então ela falou: ¿contração?¿ E eu fiz que sim com a cabeça. Fui encaminhada pra sala onde o obstetra de plantão me examinaria. Quando ele chegou percebeu que minhas contrações estavam com intervalo bem pequeno, uma atrás da outra. Pediu pra eu deitar, mas quando a contração vinha eu não conseguia ficar deitada, era torturante. Então ele me disse que eu estava com 4 cm. de dilatação. Disse que já iria me encaminhar para a sala de parto para tomar analgesia. Eu falei que não queria, e ele, surpreso, perguntou por quê. Eu falei que a dor era suportável, que não precisava, e ele perguntou se eu estava com medo, que não era pra ficar preocupada com analgesia. Eu disse que não estava preocupada, que quando achasse necessário iria pedir. E ele me falou: ¿Vai ficar sofrendo à toa...¿ Pode?? Bem, também era de se esperar, eu estava numa clínica particular com incidência de 99% de cesáreas, quando havia algum parto normal a analgesia era rotina (no outro dia foi até engraçado, as enfermeiras todas comentando: ¿Foi parto normal? Que legal!¿). Eu não queria tomar analgesia cedo demais para não atrapalhar a evolução natural do parto. Já havia prometido a mim mesma que iria agüentar o máximo que pudesse...
Fomos providenciar a internação. Eu achei que iria ser encaminhada para o quarto (estava louca para arrancar as roupas!) mas fiquei na recepção junto com o Marcelo. O jeito era ficar andando por lá e quando a contração vinha tentava ao máximo manter o controle. Não estava mais conseguindo respirar fundo durante a contração, a minha respiração era curta e rápida, e eu continuava soltando gemidos. A recepcionista dizia: respira mais fundo, com calma, senão você vai ficar tonta, mas eu realmente não conseguia. Ela começava a me fazer perguntas, mesmo vendo que eu não estava conseguindo responder, a minha vontade era de quebrar a cara dela. Eu lá ia lembrar o cep da minha rua? Nem eu nem o Marcelo... teve uma hora que eu pedi para ir pro quarto, mas ainda tive que esperar mais um pouco. Nesse meio tempo chegou outra grávida com contrações. Calmíssima. Chegou e sentou. Não disse um ai. Enquanto eu andava pra lá e pra cá, gemendo e tentando respirar fundo, a menina não mudou sequer a expressão. Acho que eu assustei o marido dela...
No quarto minhas pernas começaram a doer. Principalmente a parte de cima das coxas. Então eu tentei deitar e descansar entre as contrações, mas quando elas vinham eu não conseguia suportar. Minha médica chegou e trouxe a bola suíça, uns massageadores, e eu comecei a me sentir melhor. Tinha maior controle, já respirava melhor e suportava melhor a dor. Conversava com a médica e o tempo ia passando sem perceber. Só depois tive noção do tempo do meu trabalho de parto. Não foi tão demorado, mas também não foi dos mais rápidos. A médica me aconselhou a tomar uma chuveirada, e eu levei a bola junto. Já fazia exercícios com ela no curso com a fisioterapeuta, e dar pulinhos sentada na bola durante as contrações realmente ajudava muito. Mas as minhas pernas doíam e eu estava ficando fraca. Já amanhecendo, a médica me disse que ia dar uma olhada como estava a minha dilatação: 7 cm. Ela falou sobre estourar a bolsa, eu concordei. Jesus! Aí é que começaram as DORES de verdade! E que dores! Cada contração era mais forte que a outra, uma coisa incontrolável. Comecei a gritar e minha respiração ficou totalmente descompassada. Eu comecei a perder o controle da coisa toda e a ficar muito cansada. Não conseguia mais andar, nem sentar, nem nada! Teve um momento em que tive que morder a mão do Marcelo, que não é bobo nem nada, puxou a mão. Acho que meus gritos acordaram toda a clínica. Depois de um tempo, a médica verificou a evolução: 8 cm. Eu já estava há algum tempo pensando na possibilidade da analgesia, a médica veio conversar comigo sobre isso. Eu estava me cansando muito, e ia precisar de forças no final (e como ia!). A dor estava me desesperando, a possibilidade de não sentir mais dor me encantava. Mas eu tinha medo de não sentir mais as contrações, de não saber mais o que estava acontecendo, e a médica me garantiu que isso não ia acontecer. Pedi a ela que a quantidade de analgésico fosse a mínima possível, só pra aliviar. E lá fomos nós. Com a analgesia, eu não poderia mais ficar no quarto, tive que descer pra sala de parto. E aí começou toda aquela parafernália de hospital, roupa, pantufa, enfermeira, etc. O Marcelo e a médica foram colocar a roupa e eu fiquei na sala com a enfermeira, me torcendo de dor. Ela disse que ia me colocar no soro, eu dei um pulo: ¿Pra quê?¿ Ela respondeu que era por causa da analgesia. Eu perguntei se tinha alguma coisa no soro, ela disse que era só soro. ¿Não tem ocitocina, não, né?¿ ¿Não, só a tua médica pode prescrever qualquer medicamento.¿ Ela até que foi bem paciente comigo. Deve ter pensado: que mulher mais desconfiada! Tudo eu perguntava: pra quê isso? O que é aquilo? Na verdade eu nem lembro das respostas... ficamos esperando o anestesista e teve um momento que a contração veio, eu estava sentada na cama e a enfermeira em pé na minha frente. Quando eu dei por mim estava beliscando a barriga dela sem parar... beliscando e gritando. Coitada... depois de tudo até pedi desculpas. Ela deve ter ficado toda roxa...
O anestesista chegou, eles me colocaram sentada com a cabeça inclinada pra frente (as pernas pra fora da cama) e pediram pra eu avisar assim que passasse a contração, pois eu teria que ficar paradinha. O problema é que a coisa toda demorou um pouco pra acabar e veio outra contração, e agora? Como ficar parada naquela posição durante uma contração? Bem, compensei gritando um pouquinho mais... não posso reclamar do pessoal, a enfermeira me abraçava, o anestesista explicava tudo que estava fazendo, eles estavam bem calmos e isso ajudava muito. O Marcelo chegou e eu já não sentia mais dor. A médica disse que eu sentiria um pouco de sono, e poderia dormir uma meia hora pra descansar. Não dormi, mas fiquei conversando com o Marcelo e descansando. Me sentia aliviada e preparada para a etapa final. Um pouco depois comecei a sentir uma pressão lá embaixo, uma sensação de que eu estava me abrindo (e estava mesmo...). Senti que a bebê estava querendo sair, era como se ela estivesse pressionando a saída. Contei a médica o que estava sentindo, e então fomos pro chão.
Sentei no degrau de baixo da escadinha (aquela que a gente usa pra subir na cama) e o Marcelo atrás de mim, no degrau de cima. Quando vinha a contração eu me agachava na frente da escadinha, puxava o ar e fazia força. Então sentava de volta. A médica agachada na minha frente ia distendendo o períneo e percebendo a descida da bebê. Ela falava comigo e tempo todo, com voz baixa e suave, dizia que a bebê estava descendo, que estava quase nascendo. As contrações ficaram tão freqüentes que não havia mais como voltar pra escadinha, e em seguida não havia mais como puxar o ar, eu fazia força o tempo inteiro. Não sentia vontade de fazer força, e sim uma obrigação, parecia involuntário, que se eu não fizesse força algo ia fazer por mim. Quando a bebê coroou, eu estava sem forças, parecia que eu não ia conseguir. A médica estimulava a fazer força, ¿só mais um pouquinho¿, e eu gritava que não agüentava mais, que não estava conseguindo. A sensação é que eu estava me partindo em duas. Foram momentos que pareciam intermináveis, e por um segundo eu achei que a médica fosse ter que interferir, com uma episio (corte) ou mesmo com um fórceps. Mas ela foi mais resistente que eu, e numa última força eu gritei muito alto, alto de verdade, tão alto que no outro dia minha garganta ainda doía. E minha bebê nasceu. Era 7:29 da manhã. Naquele momento, tudo passou. De um segundo para outro, não havia mais dor, não havia mais tensão. Só felicidade. Eu não vi ela sair, pois estava de olhos fechados fazendo força, mas o Marcelo viu e eu ouvi ele chorando. Minha bebê nasceu e veio direto pro meu colo. Foi mágico, maravilhoso. Ela estava bem arregalada, acordadíssima. Eu fiquei olhando pra ela, observando cada detalhe, admirando cada pedacinho, eu e o Marcelo com a boca na orelha. Estávamos tão entretidos com ela que esquecemos de pedir a médica pro Marcelo cortar o cordão. A médica cortou e o Marcelo ficou com o rosto todo respingado de sangue. Aí ela foi com o pediatra que a pesou e mediu ali mesmo, o Marcelo foi atrás com a máquina fotográfica. Me colocaram na cama e logo a placenta saiu. Eu estava tão feliz, não parava de falar um minuto... levei três pontinhos, dos quais só sinto um que não chega a incomodar. Minha nenê teve Apgar 8 e 9. Pesou 3.150 kg e mediu 49 cm. O que aconteceu depois eu não lembro bem, pelo que lembro fui levada para o quarto, com a Sofia deitada na maca comigo, entre minhas pernas. Algumas horas depois, eu e ela já estávamos tomando banho. Tivemos alta no dia seguinte. Minha recuperação foi ótima. Não senti absolutamente nada, nem dor, nem fraqueza, nenhum tipo de incômodo. A Sofia ficou bem acordada desde o nascimento até à tarde, mas levou algumas horinhas para querer mamar. Bem, o que posso dizer sobre o meu parto é que foi abençoado. Vou lembrar para sempre do sentimento de maternidade que tomou conta de mim nesse dia. Me senti feliz, emocionada e... completa. Agradeço a Deus (e à Dra. Elise, e às Amigas do Parto, a às companheiras do LG) por ter saído tudo como eu desejava. E por ter agora em meus braços o bebê mais lindo e perfeito que eu já vi na vida, com o qual eu jamais poderia sonhar.
Mamãe Zane e Sofia
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postado por: ROSANE SENA 5:01 PM